Ser reconhecido como sujeito de direitos é uma recente conquista do ser humano. A medida que adquirimos o direito ao voto, à educação, à liberdade e igualdade, por exemplo, dizemos que somos cidadãos. Associada diretamente à história das lutas pelos direitos humanos, hoje cidadania ganha um sentido amplo e é empregada muitas vezes referindo-se aos direitos dos consumidores, à luta por justiça e democracia, asseguradoras de condições dignas de sobrevivência.
Mas o conceito de cidadania é uma via de mão dupla: se somos detentores de direitos, logo temos obrigações e deveres a cumprir. Cada indivíduo é parte do todo que constitui um Estado, uma nação, e por isso deve dá sua parcela de contribuição para o bom funcionamento da coletividade em que está inserido. A mobilização da sociedade civil através de Organizações Não Governamentais e projetos sociais voltados para beneficiar as parcelas desassistidas da população pode ser entendida como um exercício da cidadania.
O professor da Universidade de Fortaleza, doutor em Sociologia, Rosendo de Freitas Amorim, explica que inclusive projetos sociais desenvolvidos pelo Estado são exemplos do exercício da cidadania. Isso porque, tanto os projetos sociais advindos da comunidade, do terceiro setor ou do Estado, estão voltados para atuar em setores da sociedade que o governo tem dificuldade para assistir além disso, hoje no Brasil o governo continua sendo o principal agente financiador dos projetos sociais provenientes do terceiro setor. Rosendo Amorim explica ainda que se o conceito de cidadania está intrinsecamente ligado a uma vida comprometida com a sociedade e a realização do bem comum, decorre daí que projetos sociais, voltados para beneficiar parcelas desfavorecidas da população, contribuem para o fortalecimento da cidadania, à medida que ajudam os assistidos a ter uma condição de vida minimamente digna. Essa é a contribuição do individuo para o bem comum da coletividade na qual está inserido.
Cidadania é um processo que está em permanente construção, é um referencial de conquista da humanidade. Como elucida Rosendo Amorim, a consciência cidadã efetiva surge da compreensão de que cada indivíduo pode e deve assumir a posição de sujeito autônomo, livre e consciente, com base no pressuposto de que é digno e titular de direitos.
Pondo em prática a Cidadania
Em 1992 Alice Domenaqch Tupinambá saiu do Rio de Janeiro e mudou-se para Fortaleza. Com a mudança veio também a aposentadoria e ao chegar na nova cidade Alice tomou uma decisão: “vou lecionar para pessoas de comunidades carentes”. A resolução foi tomada porque a simpática senhora achou que esse era o momento de ajudar pessoas necessitadas e nada melhor do que através da educação, afinal foram 28 anos como professora.
A princípio, Dona Alice, como é carinhosamente chamada por todos, começou um trabalho na favela do Alecrim, o projeto iniciou com as mães, e logo se expandiu para as crianças da comunidade, mas o trabalho no Alecrim não durou muito tempo. Em seguida, ela teve seu primeiro contato com as crianças do Conjunto Alvorada em um puxadinho de uma igreja do bairro, onde Dona Alice ensinava crianças a ler. O grupo foi crescendo e a professora sentiu a necessidade de se desvincular da igreja e encontrar um local maior.
“A Revarte é o único lugar onde as coisas caem do céu”, Alice Domenaqch.
Dona Alice saiu à procura de um local adequado para reunir as crianças e com uma forcinha do destino, ela encontrou um prédio abandonado. Então, conversando com os morados do bairro descobriu o dono do imóvel, que já havia sido sede de uma ONG, e ganhou a escritura do local para que pudesse realizar mais um sonho: montar uma biblioteca infantil.
Por sorte a carioca determinada conheceu a bibliotecária Lúcia Cardoso, que também compartilhava do sonho de montar uma biblioteca que pudesse contribuir para uma melhor formação de crianças e jovens. As duas se idealizaram todo o projeto e depois de muito penar conseguiram, em 1999, fundar a Biblioteca Monteiro Lobato, mais conhecida como Revarte( Resgate de Valores Pela Arte).
Não parou de chover coisas do céu para essas duas cidadãs. Primeiro foi a reforma do local, em seguida a pintura da Revarte, presente de uma artista plástica conhecida de Dona Alice, depois foram as prateleiras, e junto a tudo isso foram chegando os livros, as cadeiras, as mesas e tudo aquilo que pudesse dar suporte a esse sonho.
A princípio, Dona Alice achou que iria ser necessário cobrar uma taxa de 50 centavos para a matrícula de cada criança e esse dinheiro iria servir para a manutenção dos livros e do próprio local. Contudo, depois de perceber que aqueles 50 centavos era muito para tirar do bolso de uma criança que mal tinha o que comer, ela resolveu matricular todos os interessados de graça. Afinal, o principal objetivo da Revarte é o incentivo a leitura e com isso criar oportunidades para todos.
Dona Alice é como uma mãe, ou uma avó, para muitos daqueles jovens e crianças. ”Eu gosto de chamar todos pelo nome e tenho o prazer de sentar para conversar com cada um deles. Eu sei que aquelas pessoas precisam de atenção e tento suprir essa necessidade através de conselhos, de broncas, ou mesmo de abraços”. “O que eu mais gosto é saber que sou necessária, que sou querida e amada. Eu sei que hoje eu não sou uma velha rabugenta por causa da Revarte. Lá eu sou útil. É muito gratificante chegar lá e olhar pra carinha daqueles meninos”, revela dona Alice.
“Cidadania é conscientização, é amor, é parar de pensar que é dono do mundo e ajudar ao próximo. Afinal, o próximo é você e quando você ajuda ao outro você consegue se ajudar. Nós precisamos cuidar bem do próximo para que eles possam retribuir” declara Dona Alice ao descrever cidadania.
Exemplo de luta e determinação, Dona Alice conseguiu apoiadores para seus projetos. Sempre de bem com a vida e com uma ótima conversa, ela consegue patrocinadores para apoiar as crianças nas competições e para a manutenção da Revarte. Além, é claro, de encantar a todos que por lá passam. E, para participar das oficinas, das aulas de judô, de música, de dança, do cineclube e de todas as outras atividades oferecidas, Dona Alice só faz uma exigência: que aquela criança continue a pegar livros na biblioteca. Afinal, segundo a professora aposentada, “uma vida sem leitura é uma vida vazia”.
Voluntários, verdadeiros cidadãos
Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), voluntário é aquele que dedica parte do seu tempo, a diversas formas de atividades voltadas ao bem estar social.
Naélio da Silva, Sandra Gomes e Francisco Michael fazem parte do grupo de mais de dez pessoas que realizam trabalhos voluntários, doando o seu tempo e conhecimento em benefício das mais de 1500 crianças que fazem parte da Revarte.
Sandra, que há quatro anos é auxiliar de biblioteca na Revarte, declara que dedica o seu tempo somente ao projeto. Ela diz que conheceu a Revarte devido ao interesse dos filhos pela biblioteca, pelas aulas de violão e de flauta e então resolveu participar das atividades que eram oferecidas aos mais velhos. Aos poucos foi incentivada por Dona Alice a voltar a estudar e depois que concluiu o ensino médio, resolveu ficar para ajudar no que fosse preciso. Ela conta que, nesses quatro anos, já recebeu inúmeras propostas de emprego, porém não consegue deixar o trabalho que realiza com as crianças, por achar a atividade que faz muito importante na vida de cada um que participa da Revarte.
Naélio, professor de desenho e, segundo ele, “o faz tudo”, está na Revarte há sete anos e, quando perguntado se já pensou em trabalhar em outro lugar, ele é enfático: “não, não penso em sair nunca daqui, eu gosto muito do trabalho que eu faço aqui”. Para ele a Revarte é um refúgio para as crianças “é um lugar que essas crianças têm para estudar, brincar e para crescer. Graças a Revarte esses meninos não ficam na rua aprendendo coisas ruins e se envolvendo com o que não presta. Cidadania é isso. É ajudar as crianças a saírem das ruas, estimulando a leitura e a cultura”, afirma.
São quatro os professores voluntários de judô na Revarte, entre eles está o Michael que dedica três dias da semana para dar aulas a mais de 45 alunos. Ele afirma se realizar profissionalmente ao conseguir passar o que sabe sobre o esporte para os seus alunos, além de ter a certeza de que o trabalho que realiza pode fazer muita diferença na vida de cada um. Michael diz que nas suas aulas sempre enfatiza a importância da escola, família e disciplina, pois a vida das crianças só pode ser completa se estiverem presentes essas três questões. “A vida de um campeão é curta, mas a vida de um cidadão é para sempre”, destaca.
Algumas personagens da história de Alice
Nessa história traçada por Dona Alice, algumas personagens ainda têm muito caminho pela frente. É o caso de Salomão, Érika Hellen e Thamarah, cujas histórias se cruzaram na Revarte. O trio estuda em um colégio próximo a comunidade em que moram e a têm como atividade complementar às cotidianas.
Desde o início da Revarte, Salomão de Sousa Araújo, de 13 anos, é uma das crianças que mais freqüentam o local, o qual diz ter conhecido através de sua prima. O menino era conhecido como Marve, nome com o qual tentou se registrar sem êxito, então Salomão se tornou o nome oficial. Apesar de não o ser no papel, o garoto manteve o Marve como seu nome próprio e só foi descoberto por um acaso do destino que ele conta, hoje, sorrindo: “Eu não gostava de Salomão, queria que me chamassem de Marve”, mas ao fazer a carteirinha na Federação Cearense de Judô, Dona Alice descobriu que o menino, ao contrário do que se pensava, na verdade chamava-se Salomão. Diante dessas circunstâncias, ela indicou vários livros sobre a origem de seu nome legal e, a partir da leitura, quando Salomão é questionado sobre a origem de seu nome, ele fala convicto: “eu sei quem era Salomão, Salomão era um rei”. Depois de conhecer a história de seu nome, o menino com título de rei passou a gostar de seu nome verdadeiro e abandonou o apelido pelo qual antes gostava de ser chamado.
Salomão afirma que no início da Revarte alugava as revistinhas para ler, mas gosta mesmo é de ouvir Dona Alice contá-las. “Ela coloca um drama medonho na estória”. Agora, além de ler vários livros, pratica judô e outras atividades oferecidas pela projeto. Ao ser perguntado sobre Dona Alice ele se refere com carinho e diz que “é que nem um pai pra gente” e reforça o respeito de todos por ela e a importância da Revarte, já que “tem muita gente que saiu da rua e muita gente que aprendeu a ler aqui”, declara.
Thamarah Thaynnah de Carvalho, de 16 anos, não tem uma vida muito diferente de Salomão, bem vaidosa, a menina troca a roupa para dar entrevista e tirar fotos. “Eu tenho que ficar bonita né tia?”, explica. Ela diz com orgulho que faz judô e disputa com a amiga Érika, de 13 anos, quando o assunto é o número de medalhas ganhas. Na Revarte até aula de dança já deu. “Aprendia com as aulas que tinha e depois ensinava para quem quisesse”. Nada de música clássica, Thamarah gosta de axé e da banda Sandy e Jr., por isso ensinava as danças com esse fundo musical, mas revela que se cansou de fazê-lo. Agora fala com convicção que seu sonho é ser professora de judô e se empenha na tarefa de aprender o esporte. Thamarah diz ter mudado com a vivência nas competições. “Quando não ganhava, chorava muito porque sabia que era uma oportunidade que eu estava perdendo. Mas agora eu só choro quando ganho”, revela.
Sua amiga Érika Hellen Moraes mostra, vaidosa, fotos suas publicadas nos jornais registrando as vitórias no judô, através do qual coleciona medalhas. Na Revarte, além do judô deseja aprender violão, mas, canhota, sente dificuldade no desempenho da tarefa, “porque não consigo fazer essas coisas com a direita”, justifica. Dos livros, o que Érika mais gosta é o Atlas, pela infinidade de países com os quais pode imaginar. Devido a essa paixão, a garota diz saber todas as capitais brasileiras, “quer ver? Me pergunta?”, desafia, segura do seu conhecimento. Ela reconhece o fato de a Revarte ser um lugar importante aos estudos cujas fontes de pesquisa são vastas. “Aqui tem muito incentivo também pra gente estudar, se a professora passa um trabalho, aqui tem tudo”. Não só Érika como todos que ali freqüentam tem o mesmo pensamento. A Revarte, como o próprio nome já diz, resgata valores, cultivados desde o primeiro instante que adentra no local.




